Abaixo está a transcrição na íntegra do capítulo "Umbanda é de crença espírita", extraído da obra Jardim dos Orixás/Ramatís:
A clareza mental do codificador do espiritismo constata-se pela precisão de sua linguagem e abordagem dos temas, demonstrando coragem e inconformismo quanto aos preconceitos e dogmas religiosos de sua época. Infelizmente o espírito kardequiano está um pouco esquecido numa grande parte dos que se dizem espíritas, uma vez que se mostram crentes fanáticos como se fossem de uma religião fundamentalista, ou seja, despreparados para exercitar o "ser espírita" preconizado por Kardec, inserido no aspecto religioso da Doutrina, contido no livro O Evangelho segundo o espiritismo.
Nesta que é uma das obras básicas do espiritismo, Kardec dividiu os Evangelhos em cinco partes: os atos ordinários da vida do Cristo; os milagres; as profecias; as palavras que serviram para o estabelecimento dos dogmas da Igreja; e o ensino moral. A parte moral foi considerada, pelos espíritos iluminados que conduziram a Codificação, de suma importância, tanto que as demais são ínfimas se comparadas em número de páginas com ela, como confirma Kardec: "Esta parte constitui o objeto exclusivo da presente obra".
Logo, podemos concluir com toda a segurança que religião, no enfoque espírita, é antes de tudo uma questão de conduta moral, que deveria se refletir no comportamento dos que adotam o espiritismo. No entanto isso não se verifica na prática, o que atribuímos ao atavismo arraigado dos homens, obviamente desvinculado da essência do que é "ser espírita". Allan Kardec nunca preconizou que o espírita verdadeiro seria este ou aquele, pois não existem falsos espíritas, o que fazia com que ele admitisse que os indivíduos presenciassem ligados às suas igrejas e templos. Para o espiritismo, por ser uma doutrina filosófica, como tanto insistiu o Codificador, não há possibilidade da existência de espíritas melhores do que outros, falsos ou verdadeiros.
Constatamos um fanatismo religioso desconectado do aspecto moral da doutrina espírita, que denota instabilidade e despreparo espiritual dessas pessoas, o que não tem nada a ver com o espiritismo, muito menos com o Plano Espiritual.
Após essas constatações, sugerimos que bebamos direto da fonte de luz para clarearmos nosso raciocínio, por isso transcrevemos a seguir algumas palavras de Allan Kardec extraídas da obra O que é o espiritismo, de domínio público:
"A doutrina hoje ensinada pelos espíritos nada tem de novo; seus fragmentos são encontrados na maior parte dos filósofos da Índia, do Egito e da Grécia, e se completam nos ensinos de Jesus Cristo."
"Sob o ponto de vista religioso, o espiritismo tem por base os verdadeiros fundamentos de todas as religiões: Deus, a alma, a imortalidade, as penas e recompensas futuras. Mas é independente de qualquer culto particular. Seu fim é provar a existência da alma aos que negam ou que disso duvidam; demonstrar que ela sobrevive ao corpo e que, após a morte, sofre as consequências do bem e do mal que haja feito durante a vida terrena e isto é comum a todas as religiões."
"Como a crença nos espíritos é igualmente de todas as religiões, assim é de todos os povos, por isso que onde há homens há espíritos e, ainda, porque as manifestações são de todos os tempos, e seus relatos, sem qualquer exceção, se acham em todas as religiões. Assim, pois, pode-se ser católico, grego ou romano, protestante, judeu ou muçulmano e crer nas manifestações dos espíritos e, consequentemente, ser-se espírita. A prova está em que o espiritismo tem adeptos em todas as religiões."
"Não sendo os espíritos mais do que as almas, não é possível negar aqueles sem negar estas. Admitindo-se as almas ou espíritos, a questão se reduz à sua expressão mais simples: as almas dos que morreram podem comunicar-se conosco?"
"O espiritismo prova a afirmação com os fatos materiais. Que prova podem dar de que isto seja impossível? Se o é, nem todas as negações do mundo impedirão que o seja, porque isto não é um sistema, nem uma teoria, mas uma lei da natureza. E contra as leis da natureza é impotente a vontade dos homens."
Umbanda é de crença espírita, diria Allan Kardec se estivesse encarnado entre nós?
Com certeza a resposta é sim.
Imploramos ao Alto que os que se dizem espíritas na Terra resgatem o senso de observação de Allan Kardec, desprovido de quaisquer preconceitos. Analisem, observem, estudem e compreendam a Umbanda e, antes de qualquer coisa, respeitem-na como expressão mediúnica da Espiritualidade Superior para socorrer os necessitados do corpo e da alma.
Irmãos, vamos nos dar as mãos, independentemente de fé, crença, raça, religião, sexo e classe social. Vamos amar uns aos outros, como Cristo nos ensinou.
