Deus, nosso Pai, CAMINHE pela minha casa e leve embora todas as minhas preocupações e doenças, e POR FAVOR, vigia e cura a minha família em nome de Jesus ... AMÉM

terça-feira, 7 de abril de 2026

Iroko: Árvore orixá e orixá da árvore

Iroco (IROKO)é a grande árvore encantada, pai e mãe de tudo que existe no mundo sagrado; temida, amada e respeitada por aqueles que a conhecem de perto, é a morada dos orixás (dos iorubas), voduns (dos povos fon ou jeje), inquices (dos bantos) e de todos os tipos de espíritos, feiticeiros e bruxas. Para o corte dos galhos de Iroco, é preciso que se façam oferendas e, mesmo assim, nunca se sabe...

Conta a tradição que os furacões e os raios respeitam os Irocos: Iansã, a senhora dos ventos e das tempestades, poupa todas as “moradas” do orixá da árvore, com quem mantem uma estreita afinidade.

Essa árvore, tão absolutamente sagrada, é chamada de Iggi Olórum (árvore do Senhor dos Céus, para muitos o mesmo Deus de Israel e dos cristãos) e só pode ser a expressão do divino: é o Orixá Iroco para os iorubas; o Vodum Loco para os Fons do Benin; o Orixá Olorokê para os efãs e ijexas; o Inquice Tempo para grande parte do povo banto. Para o povo jeje-mahi (do Dahomey, atual República do Benin), a árvore sagrada é a morada de Azanadô (ou Azonnondo), vodum masculino da família de Bessen, o Oxumarê dos iorubas.

O verdadeiro Iroco é uma enorme árvore que existe somente na África; é classificada cientificamente como Clorophora excelsa. No Novo Mundo, Iroco escolheu outras moradas sagradas: no Brasil reside geralmente em um tipo de gameleira, Ficus religiosa, que pode viver mais de dois séculos; essa árvore abundante na Bahia, abriga o orixá e nele se transforma, sendo absolutamente necessária para o culto das divindades afro-brasileiras.

Iroco é vanguardeiro e sabe ouvir

Iroco é o comandante de todas as árvores sagradas, o vanguardeiro; isso o aproxima do orixá Ogum.

Os demais Osa Iggi devem-lhe obediência porque só ele é Iggi Olórum, a árvore do Senhor do céu. É preciso que falemos e tenhamos boa convivência com essa divindade silenciosa e turbulenta, contemplativa que mais gosta de ouvir que de falar, generosa e gentil, colérica e terrível, apaixonada e também cruel, mais muito justiceira. Iroco é a árvore da vida e a vida é tudo, aceita tudo e continua sendo.

“...Quem é que pode com Iroco? Iroco não é fácil! – diz a sábia Locossi, ebome Cidália Soledade Barbosa, do candomblé do Gantois.

Iroco é o orixá patrono da liberdade, porque mora “no tempo” e detesta espaços fechados e muros ao seu redor. É belo, dá sombra e testemunha a eternidade, chamando-nos à festa da vida e ao respeito a natureza.

Iroco é da terra, fogo e ar

Veremos outros mitos nos quais Osa Iggi aparece como o cemitério (forma como era usado na África); isso o aproxima de Xapanã, grande senhor do elemento terra, “o dono” das necrópoles.

Os familiares dos mortos costumavam, na África, colocar os cadáveres dos parentes nos grandes orifícios dos baobas e dos irocos africanos, o que, mesmo tornando-se com o tempo impraticável, deu a Iroco o apelida de “árvore-cemitério”. O ritual fúnebre chamado axexe, do original ajejê (vigília do caçador), teve lugar, inicialmente, em um pé de iroco.

Iroco se veste de Branco

Iroco se veste sempre de branco; isso mostra sua relação com o mundo dos ancestrais, o que ocorre com quase todos os demais orixás das árvores.

Iroco – Loco usa essa cor também porque suas fortes e muitas vezes violentas energias devem ficar contidas, equilibradas. O vodun Loco também se traja de branco, assim como Oloroquê que, quando manifestado, dança em volto em um lençol, lembrando-nos o Ojá que enfeita árvore.

“Ê Tempo zará! Ê Tempo zará, Tempo! Eila mano, eila cumpadi!”

Tempo é um inquice semelhante a Iroco-Loco. Para algumas pessoas, representa o próprio tempo, que não para de passar. Mora na Ficus religiosa e nas mangueiras; mas não é considerado um inquice árvore, e sim uma divindade que é cultuada ao pé de uma árvore sagrada. Apresenta muitas características do Inquice Cavungu, semelhante ao Omolu dos iorubas que é considerado irmão de Tempo pelos membros da nação congo-angola, responsável por obrigações de muito fundamento.

Contos de Ifá e contos populares sobre Iroco e outras árvores sagradas

Árvore “vira” orixá, gente “vira” no orixá e orixá “vira” árvore

Iroco era uma árvore muito importante, importante a valer. Tão importante que todos iam ao pé dela para pedir coisas, dar-lhe presentes, olhar sua beleza e imponência.

Exu era o senhor dos caminhos cruzados.

Olofim determinou que os orixás e ibejis (os gêmeos) fossem cultuados pelos viventes. Eles receberam a ordem de sair pelo mundo à procura de seus filhos, o que aproximaria o mundo dos encantados do mundo das pessoas, para a felicidade de todos.

Iroco era muitíssimo cultuado e trabalhava muito, até demais. Os carregos grandes iam para o pé da árvore e cada vez mais o povo pedia. Pediam tanto a essa árvore, que os milagres começaram a acontecer e os pedidos e promessas triplicavam... Iroco cada vez mais popular, de tanto que pediam e de tanto que ele trabalhava sem parar.

Um dia os oluôs (adivinhos) fizeram uma “junção” para conversar sobre essa árvore, que tanto estava dando o que falar. Foram lá para baixo dela, na sombra e começaram a jogar. Resolveram pedir a Iroco que ele viesse fazer parte do Axé, junto com os outros orixás, para que “fosse feito”.

Ele respondeu que sim, que passaria para o lado dos orixás de vez, mas que jamais moraria dentro de uma casa de orixá. Ia ficar na rua, que era seu lugar, do lado de fora, e não aceitaria muro em redor de si, mas cerca feita de várias tabuas, cada uma representando um membro do candomblé. Queria morar cercado pelo povo-de-santo, sua gente, mais fora de qualquer casa, que é o seu principal ewó (proibição).

Tudo dele tinha de ser feito na rua. Ele se vestiria sempre de branco e “responderia” em todas as nações. “Sem essa” de “nação pura”, com ele? Cada uma tem seu encanto próprio e a união faz a força.

Atenderia pelos seguintes nomes: Iroco, Loco, Olo Oco, Oloroquê e Tempo. Os oluôs concordaram e disseram que tudo seria feito de acordo com sua vontade.

Dito e feito.

La perto havia uma feira de cheia de movimento. Iroco soprou, soprou o seu hálito, em forma de vento, foi cair sobre a cabeça de uma moça o hálito, em forma de vento, foi cair sobre a cabeça de uma moça, que vendia na feira. A moça começou a rodar, a rodar, a rodar, e foi cair nos pés de Iroco, nascendo a primeira locossi... A primeira filha de Iroco na Terra!

Esta era a grande resposta do Senhor da Árvore aos babalaôs:

“Roko dê, Sororô...

Oguê, Oguê, Sororô...”

Isso quer dizer que Iroco chega no axé, chega para dançar e ficar.

Podem falar que Iroco chegou!

Vendo aquilo, todos os orixás correram para o pé de Iroco, para uma grande junção. (“gente comum faz reunião; orixá faz junção...”) Chegaram trazendo suas comidas prediletas: Ogum levou um inhame assado, Oxóssi levou milho amarelo, Omolu levou pipoca e feijão preto, Ossãim levou farofa de mel de abelha, Oxumarê levou farofa de feijão, Xangô levou amalá, Oxalufã levou milho branco, Oxoguiã, bolo de inhame cozido, Orunmilá levou ossos.

Exu chegou, correndo e levou cachaça. Ajoelhou-se nos pés de Iroco e jogou três pingos no chão, cheirou três vezes e bebeu um pouco. Nesse momento transformou-se em árvore, Ogum em cachorro, Oxóssi em vaga-lume, Omolu em aranha, Oxala em camaleão, Oxumarê em cobra, Xangô em cágado e as comidas ficaram no pé da árvore.

A moça foi recolhida e assim foi iniciado de que se tem notícia.

Dizem que o nome desse Iroco trouxe foi muito lindo, bonito mesmo!


Pesquisa do livro “Iroco, o orixá da arvore e a arvore orixá”.

Por Cleo Martins e Roberval Marinho

Editora Pallas: coleção Orixás – ano 2002